TRANSMISSÃO DIRETA MEDIATA

 

Denomina-se transmissão direta mediata ou contágio mediato o mecanismo segundo o qual um substrato vital, eliminado por um indivíduo infectado, situado nas proximidades de um suscetível, carreia consigo o bioagente patogênico, com passagem reduzida pelo meio ambiente, até o meio interno do indivíduo suscetível, onde se desenvolve ou se multiplica, estabelecendo a infecção. As doenças cujos agentes causais são transmitidos por contato imediato ou por contato mediato são denominadas doenças contagiosas.

Observe-se que, em alguns dos processos transmissivos que obedecem a esse mecanismo de transmissão direta mediata, o substrato deve oferecer ao agente infeccioso condições biológicas de sobrevivência no ecótopo por um período de tempo restrito. É possível propor uma lista de, pelo menos, três possibilidades gerais de veiculação do bioagente no contato mediato: 

Por esse mecanismo o agente infeccioso é transportado em suspensão nas gotículas líquidas, denominado gotículas de Flügge, que, por sua vez, suspensas na atmosfera, fazem o aerossol primário. A transmissão em si resulta de envolvimento, na mesma atmosfera, sem necessariamente contato físico, entre a fonte de infecção e o novo hospedeiro ou suscetível.

Estão enquadrados nesse processo de transmissão por aerossóis primários os vírus do sarampo, da caxumba, da varíola, da gripe, da rubéola, do resfriado comum, e bactérias, agentes da tuberculose pulmonar, da coqueluche, da difteria, da doença meningocócica, da peste pneumônica.

Vejamos três exemplos de doenças na categoria de transmissão direta mediata: o sarampo, a tuberculose pulmonar e a hanseníase. Estes têm nas secreções oronasais recentes (aerossóis primários) o modo mais comum de transmissão. Além disso, embora em menor escala, a tuberculose pode também ser transmitida de forma indireta por aerossóis secundários. 

SARAMPO: É infecção produzida por um vírus do gênero morbilivírus, da família paramyxoviridae, eliminado pelas secreções da nasofaringe. A via de inoculação, ou porta de entrada, corresponde à mesma de eliminação, isto é, o trato respiratório superior. O vírus, ao penetrar no suscetível, passa a se multiplicar localmente, na região da nasofaringe, e em seguida se espalha para os tecidos linfáticos vizinhos.

Após um período de incubação de aproximadamente 10 dias, surge o período prodrômico, que se caracteriza clinicamente por mal-estar, febre, coriza, conjuntivite e fotofobia. No final do período prodrômico surge o sinal de koplik, que se caracteriza por pequenos pontos esbranquiçados envoltos por um halo avermelhado na região interna da mucosa bucal ao nível dos pré-molares. Entre o quarto e o sexto dias de doença, surge exantema maculopapular, iniciando-se pela face e expandindo-se posteriormente por todo corpo.

Em crianças normais, o sarampo é, em geral, benigno, mas, em crianças desnutridas, as complicações (pneumonia e broncopneumonia) poderão conduzir ao óbito. Daí a letalidade pelo sarampo no sul ser bem menor do que é a letalidade no nordeste do Brasil. Não há tratamento específico para o sarampo. A prevenção é feita através de vacina eficiente e inócua, aplicada por via subcutânia, em criança a partir do nono mês de idade. É feito um reforço com tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba) aos 15 meses de idade.

Apesar da existência da vacina, que é um instrumento eficaz na prevenção da doença, o sarampo ainda é um grave problema de saúde pública, já que o controle só é alcançado quando se mantém a taxa de cobertura vacinal acima de 95%. No Brasil, na década de 80-90, essas taxas estiveram sempre abaixo do esperado.

Publicação do MS/CENEPI, julho-1992, informa que, no processo de implantação do sistema de vigilância epidemiológica do sarampo, já iniciado, são as seguintes as recomendações: 

a.       “Notificação imediata de todo caso suspeito, ao nível hierárquico superior no prazo máximo de 24 horas, com início simultâneo da investigação.

Definição de caso suspeito: toda ocorrência de febre igual ou maior do que 38,5oC, apresentando erupção cutânea, associada a um ou mais dos seguintes sintomas: tosse, coriza e conjuntivite.

            A ampla definição adotada pelo programa possibilita um melhor conhecimento do número de casos da doença, o que torna o sistema de vigilância mais sensível.

            Definição de surto: ocorrência de três ou mais casos suspeitos, numa área geográfica definida (povoado, bairro, município etc.), notificados num período de 30 dias, e que tenham uma associação epidemiológica.           

b. Investigação imediata de 100% dos casos para:        

c.       Educação em saúde. Independente da ocorrência ou não de casos, é importante que se realizem atividades de educação em saúde para que a população seja envolvida e participe da proposta de controle da doença.

d.      Análise da investigação e retroalimentação do sistema. Os resultados das investigações e as medidas de controle executadas serão analisadas no nível local, para avaliação e acompanhamento da situação epidemiológica em cada município. 

TUBERCULOSE PULMONAR

 

O bacilo da tuberculose, Mycobacterium tuberculosis, é veiculado entre os contatos e transmitido do doente ao sadio através de um dentre dois possíveis mecanismos: 

O mecanismo de mais alta probabilidade é a transmissão direta mediata através das secreções da nasofaringe de portadores bacilíferos em convivência estreita e prolongada com pessoas suscetíveis.

O aerossol secundário apenas remotamente entra na cadeia de transmissão. Para que ocorra essa possibilidade, é necessário que o escarro do doente fique em local relativamente úmido e ao abrigo da luz, condições estas necessárias para a preservação da vitalidade do microrganismo. A dessecação e a ação dos raios ultravioleta produzem uma assepsia específica relativa, diminuindo as probabilidades do mecanismo indireto.

O aclaramento dos modos de transmissão e das probabilidades relativas destes permite explicar o motivo pelo qual a transmissão do bacilo está restrita quase que exclusivamente aos contatos diretos de pacientes portadores de escarros positivos em contato estreito e duradouro, especialmente intrafamiliar. No passado, foi tal a incidência da doença entre membros da mesma família que se chegou a pensar na tuberculose como doença inata, transferindo-se de pais para filhos. Atualmente, sabe-se que a simples exposição do sadio, ou seja, a sus presença como receptor no processo de transporte do bacilo, não constitui, por si só, condição suficiente para produzir-lhe à doença. Para que o portador da infecção se transforme em doente é necessário um conjunto de fatores intrínsecos e extrínsecos. A carência alimentar é um deles. Levantamentos epidemiológicos realizados em diversos países demonstraram que a tuberculose pulmonar tem maior prevalência nas camadas populacionais mais pobres. A prevalência da doença esta associada ao desemprego ou ao subemprego, baixo grau de escolaridade, alimentação deficiente e insuficiente, habitação insalubre e a outros fatores associados à pobreza.